Histórias do Bangalô: o Calor e o Gelo

© by Antonio Marrocos

Arre ééégua!
Oito horas da manhã. Ao entrar em casa, essa expressão foi a primeira que ocorreu a Macalé, após uma noite inteira e cansativa de trabalho. Já estava acostumado a essas esticadas desde que o Bangalô fora inaugurado, treze anos antes. Mas, aquela noite...

Antes de fechar o Bar e sair para as compras, - era melhor deixar tudo pronto para logo mais à noite - tivera que levar uma amiga-cliente em casa, impossibilitada que estava de dar dois passos. Dirigir nem pensar. Cinco horas da madruga! E o que fora pior: ao chegar a casa descobriu que a amiga mudara de endereço, não indicava o novo, e ria às gargalhadas com seu embaraço. O que fazer? Arreégua!

E o Biúva? Chegara por volta da meia-noite, "p'ra lá de Bagdá". E continuara bebendo. Tudo bem. O Biúva era de casa, e muito boa gente. Mas estava de um jeito que, aquela noite tinha sido impossível entender qualquer coisa que dizia. Estranhamente, quando o Dalton chegou procurando por ele como haviam combinado, às tres horas da manhã, ninguém soube dizer onde estava. Desaparecera. Alguém falou que levantara da mesa onde estivera debruçado, para ir ao banheiro, e aparentemente se fora.

Oito horas da manhã e o calor já incomodava. Nada que um bom banho e algumas horas de sono não superassem. As crianças, como sempre, já estavam na escola. A Lene não falhava. Grande companheira!

Quando o telefone tocou despertando-o, atendeu, bêbado de sono.

- Alôôô!
- Macalé, que horas você vai abrir o Bangalô?
- Q...?
- Que horas abre o Bangalô?

Essa não!!!

- Porra, Biúva (reconhecera a voz), me deixa dormir!

E bateu o telefone, virando-se na cama. Lembrou-se do Dalton procurando pelo Biúva, não o encontrando, nem mesmo na mesa de fundo da área lateral onde se apoiara para dormir. Mais um p'ra levar em casa.

Afinal, dormiu novamente.

A campainha do telefone outra vez. Puta merda!

- ALÔ!
- Ô Macalé, que horas você abre o Bangalô? Era a voz pastosa do Biúva.
- Biúva, pelo amor de Deus. São onze horas da manhã. Me deixa dormir.

Quase quebrou o telefone ao desligar. Irritado, esqueceu-se de retirá-lo da tomada. Dessa vez demorou um pouco mais a dormir. Que merda! O Biúva tá cansado de saber que o Bangalô só abre à noite! Bebum, já de manhã, decidira por essa brincadeira infeliz de infernizar seu sono. Mas, à noite ele iria ouvir. Dormiu outra vez, vencido pelo cansaço.

Triiiiiiiiiiim.

- Alô, é Macalé? Vem abrir o Bangalô.
- Como...?

- Ô Biúva, vai t......

- Porra, Macalé. Tu me deixou preso no banheiro, tô bebendo aqui p'ra passar o tempo, mas agora acabou o gelo. Que horas tu vem abrir essa birosca?