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- Filho. Preciso que você vá "lá em baixo"!
Essa era uma expressão comum naqueles tempos - passagem dos anos cinqüenta para os anos sessenta. A pequena cidade de Porto Velho resumia-se ao centro comercial e a poucos e pequenos bairros em volta: Caiari, Arigolândia, Areal, Mocambo, Baixa da União, Alto do Bode, Bairro do Um, Olaria, Triângulo e uns poucos mais, que a memória oculta. Uma comunidade onde se dormia com a janela aberta por causa do calor, se os carapanãs deixassem; "todos" se conheciam e, vivia-se sem medos. Isto é, crianças e jovens temiam mapinguaris, cobras-grandes e outros seres desconhecidos e aterrorizantes da floresta, além dos ciganos. Estes, segundo a crença, raptavam crianças descuidadas, quando um dia sumiam sem deixar notícias, com todos os seus pertences, do local onde acampavam por algum tempo. Banhos de rio eram tidos como perigosos por causa dos minúsculos candirus e das gigantescas piraíbas, mas o eram, na verdade, pela força das águas do rio Madeira.
O pequeno Centro comercial havia se formado basicamente no trecho da Avenida Sete de Setembro, entre a praça Rondon e a rua Prudente de Morais, as ruas José do Patrocínio e Nathanael de Albuquerque. Esse polígono fica numa depressão do terreno que é dominada pelo Palácio Presidente Vargas, sede do Governo, e se estende até as atuais instalações do Museu da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, onde ficavam a estação ferroviária e o porto da cidade. Como as residências da grande maioria da população ficavam na parte alta, era hábito dizer "vou lá em baixo", quando se ia ao centro para compras, ou bater papo com os amigos nas esquinas ou, nos restaurantes de então: o Almanara - ainda no mesmo local - e o Café Santos, já fechado. Ali ficavam também os cinemas Brasil, Resky e Lacerda, o Clipper, há muito demolido, e a Praça Rondon, principais pontos de encontro da juventude portovelhense de então.
Assim, quando em casa faltava o pão, devíamos ir "lá em baixo", na padaria do Resky ou do Raposo. O comércio de bairro era quase inexistente, restrito a umas poucas e desabastecidas "vendas" que ofertavam frutas e umas tantas utilidades, frequentemente nas próprias residências dos improvisados comerciantes. Assim, quando em casa faltava o pão devíamos ir "lá em baixo", na padaria do Resky ou do Raposo. O Mercado Municipal, bela e harmoniosa construção semidestruída pelo fogo em 1963, depois quase totalmente arrasado, era um centro de comércio diversificado e muito procurado. Como na época só dispúnhamos de energia elétrica uma pequena parte do dia, não havia, por exemplo, açougues, na cidade. Era no Mercado que nossos pais compravam carne e peixe para alimentação da família. Sempre de madrugada. Quem chegava mais cedo e tinha um acordo($) com algum açougueiro, conseguia as melhores partes. Quando o sol já dominava tudo, os retardatários voltavam para casa de mãos abanando. Para a garotada era uma festa. Acordar no meio da noite, descer quase sempre com o pai (essa não era uma atividade típica das mulheres) caminhando até o mercado, comer tapioca, mungunzá ou outro tipo de mingau nas bancas das grandes cozinheiras de então, particularmente da D. Chiquinha, era algo para ser lembrado por vários dias e recordado para sempre.
Dentre as práticas comerciais de então, a venda "fiado" é inesquecível. Em particular, talvez por referir-se a algo tão básico e diário como a alimentação, merece uma lembrança especial a Casa Damour, do senhor Tufic Matny, o Tufic Barateiro, comerciante libanês de secos e molhados. Localizava-se na rua Henrique Dias, em frente ao Mercado Municipal. O senhor Matny, como de resto vários outros comerciantes, praticava um comércio, digamos, à antiga. Muitas famílias, pelo menos aquelas cujos chefes tinham emprego ou fonte de renda conhecida, tinham uma conta aberta na loja, controlada manualmente em um caderno.
- "Seu" Tufic, mamãe mandou essa lista.
E o pedido era imediatamente aviado. O "turco", ou um de seus filhos, registrava as compras no caderno. Compravam-se feijão, arroz, farinha, açucar, etc., por litros, não por quilos. Não sei a razão. Provavelmente não havia balanças aferidas. Nos períodos em que não havia carne bovina ou peixe - vários meses ao longo de um ano - encontravamos ali as principais fontes de proteína animal, as conservas enlatadas: corned beef (o fabricante preferia a expressão inglesa, ao invés da simplória fiambrada), sardinha e outras. Também o leite vinha dali, em pó ou condensado, pois leite de vaca in natura era coisa rara.
Mas não é só por isso que merece ser lembrada. Ocorre que os empregadores locais eram quase tão somente o poder público federal, inclusive na Ferrovia, e o comércio. Rondônia era um dos quatro Territórios Federais da União e, a cada passagem de ano os salários atrasavam três/quatro meses. Dizem que por causa da burocracia oficial e fechamento das contas governamentais anuais, os débitos trabalhistas "caíam em exercícios findos". As vendas continuavam se fazendo normalmente e o caderno do velho Tufic enchendo-se de anotações. Até que finalmente, um dia, abria-se o novo orçamento e o funcionalismo recebia os salários atrasados. Só então, sem traumas ou reclamações, os débitos eram liquidados, sem juros ou correção monetária (que, de resto, ainda não havia sido criada).
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