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Quem teve oportunidade, como eu, de conhecer a intimidade
do Dr. Hamilton
Raulino Gondim, médico pioneiro desta região, sabe a interessante figura
humana que ele era. Baiano que só ele, costumava dizer que não havia lua
tão grande quanto a da sua amada Salvador, onde nascera no dia 16 de
dezembro de 1914. Esperto, sabia o que a baiana tinha, mas não contava a
ninguém.
Formado na Faculdade de Medicina da Bahia, a primeira do
Brasil, em 8 de
dezembro de 1940, dedicou-se à clínica médica e à saúde pública. Quando
médico do SESP, teve oportunidade de especializar-se nos Estados Unidos. Ao
regressar, nos meados de 1948, após um ano de estudos em
Washington, foi designado para uma missão sanitária em Guajará-Mirim, onde
grassava uma epidemia de febre amarela. Somente seis anos depois veio para
Porto Velho, onde fixou residência com sua família constituída na Pérola do
Mamoré.
Gondim era um mestre no bem viver. Aliás, não há lições
mais importantes a
serem aprendidas do que aquelas de como viver melhor e feliz. Não era dado
a cultivar ilusões " para não se desiludir", dizia. Buscava o lado bom da
vida, por isso pouco se queixava, para não recordar os dissabores
vivenciados. Gostava de se dizer com saúde e não lamentava achaques
impostos pela idade. Degustador de bebidas, comidas e do melhor do banquete
da vida, costumava dizer, em família, que não chorassem quando ele
morresse, pois havia feito tudo o que desejou.
Profissional competente que era, não se omitia em passar
sua larga
experiência aos colegas mais jovens. Dizia que o médico deveria abster-se
de prognósticos muito definitivos, de assertivas como nunca ou sempre,
posto que as reações biológicas podem surpreender. Por vezes, pacientes
quase moribundos sobrevivem. Outros, com aparente bom prognóstico, evoluem
mal, e até morrem. E mais: medicina é ciência e arte. O médico que só
buscar respostas nos postulados científicos, tantas vezes passageiros,
suprimirá de seu ato algo tão ou mais importante para a cura que é a arte
de perscrutar os sentimentos e os anseios de seus pacientes, lembrava o
experiente doutor.
As maiores lições são os exemplos. Gondim sabia dá-las ao
ponto de
contagiar quem com ele convivia com o seu bom jeito de ver a vida. Os
anos, já muitos, não conseguiram envelhecê-lo. Quando lhe perguntavam
quantos anos tinha, retrucava sempre com outra interrogativa: "Quantos
você acha que tenho?". Como, quase sempre, achavam-no mais moço, ele
confirmava com um sorriso vaidoso. J. Barrymore escreveu: "Um homem só
envelhece quando nele os lamentos substituem os sonhos". Eis a resposta
para a jovialidade de Gondim. Na atitude dele os lamentos eram lançados na
lixeira do esquecimento, sempre que possível. Relembrar os bons momentos é
reviver seus prazeres, daí certamente a razão de o ilustre médico ter sido
dado a repetir histórias cheias de bom humor.
A propósito dos relatos bem humorados de Gondim, lembro-me
de alguns como
aquele sobre um certo amigo seu, o Pironcy, que topou o desafio de um dos
componentes daquelas famosas rodas de drinques de que participavam, com
freqüência, nos finais das tardes vazias de Guajará-Mirim dos anos 50. Quem
ingerisse maior quantidade de bebida alcoólica seria o vencedor. Pironcy,
o aloprado, além de derrubar literalmente o seu oponente, para a surpresa
dos presentes, de quebra, mastigou e engoliu o copo. De outra feita,
contava sobre um impasse que aconteceu com outro folclórico amigo seu, o
Dr.Rubens. O tal médico, indignado com a relutância de uma paciente que
havia tratado de lepra em acreditar que estava curada, propôs ter uma
relação sexual com ela para provar sua afirmativa. E haja histórias! Euro Tourinho, que
ainda está aí firme, Ary de Macedo, Almeida e Numes, que já se foram, todos amigos
inseparáveis do bom baiano, certamente também ouviram muitas delas.
Gondim gostava de saborear os prazeres possíveis. Dizia
que tão
importante quanto saber ganhar dinheiro é saber gastá-lo. Nisso ele também
era um mestre. Quando viajava de férias, com suas economias de um ano,
hospedava-se em hotéis de luxo, freqüentava bons restaurantes e só comprava
roupas finas e sapatos de cromo alemão, um must na época. Homem de poucos
mas bons amigos, dizia, quando o convidavam para alguma recepção festiva,
que "o mais importante é saber com quem se vai comer ou beber e não o quê".
Há uma década e meia da morte de Gondim, em 18 de novembro
de 1985, suas lições permanecem vivas e úteis para mim, que tive a chance de ouvi-las
e observá-las em seu exemplo, durante os 15 anos em que privei de sua
agradável convivência. Penso que ainda as sei de cor, só não tenho certeza
de que as aprendi...
Nota do Autor
O Dr. Hamilton Raulino Gondim deu importante contribuição a esta região
como médico e como homem público. Instalou o Conselho Regional de Medicina
de Rondônia, foi prefeito de Guajará-Mirim e, por duas vezes, prefeito de
Porto Velho. Assumiu todos os importantes cargos destinados a médico na
administração pública em Rondônia. "Para mim, qualquer que seja o cargo,
existe sempre um encargo equivalente, impondo responsabilidades, exigindo
deveres, reclamando zelo e honestidade de ação e propósitos", disse o
eminente médico em um de seus discursos de posse.
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