| © by Antonio Marrocos |
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1959...
O grupo se espremia em torno do rádio de pilha. Um dos grandes, não um simples radinho! Dominava a todos um sentimento misto de medo e esperança. - Que m...., a tal da propagação estava pior que nos piores dias. Afinal, de quem fora o segundo gol? O primeiro, não era certo, mas alguém no grupo afirmava ter sido do Flamengo. Não podia ser verdade. Ninguém conseguia ouvir direito mesmo, como ter certeza? A única certeza era a de que tinha havido dois gols. O longo grito de gol do locutor (quem era? Valdir Amaral?) não deixava dúvidas, mesmo com péssima recepção. Dois gols! Houvessem sido os dois do Vasco, ou mesmo, um para cada time, pronto. Vasco, Super-Super Campeão do Rio de Janeiro. Os dois do Flamengo? Impossível! - Ou não? Nem pensar!
Naquela tarde de dezenove de janeiro, no Maracanã, disputava-se o jogo de futebol decisivo de um torneio especial. Decidia-se ali o campeonato carioca de 1958, o ano do primeiro campeonato mundial da Seleção, ganho na Suécia com os dribles de Garrincha e os gols de Pelé (de Vavá, também). Decerto que na maior parte do Brasil, todos acompanhavam a narração do jogo transmitido pelas principais estações de rádio do país.
No tempo em que só havia campeonato nacional de futebol entre as seleções estaduais, o clube "do coração" de cada um de nós disputava o campeonato do Rio, ou de São Paulo. O clube preferido da cidade era o "segundo" time. No meu caso, o Ferroviário. Que, no entanto, devo admitir, tinha um defeito. Como teria sido muito caro criar e produzir uma camisa especial p'ro clube, e entre os fundadores o primeiro presidente era "tricolor", haviam decidido usar a camisa do Fluminense, disponível nas lojas. Má escolha!
Era um tempo em que, sem usar antenas potentes, em Porto Velho só conseguíamos ouvir com regularidade algumas estações brasileiras: Nacional e Globo, do Rio, e Brasil Central, de Cuiabá, ao que me lembro. Em horários especiais, mas com som alto e claro, a Voz da América (EUA), a BBC (Londres) e Havana Livre (Cuba). As comunicações eram "medievais" para os padrões de hoje. Sem TV, telefonia urbana inexistente, interurbana apenas durante pouquíssimas horas ao dia, e o rádio dependendo das condições do tempo (da propagação, diziam os técnicos), era muito difícil estar atualizado com o que acontecia além do Rio Madeira. De repente, jogo encerrado. Quem fora Campeão? ...... Finalmente, e para grande satisfação de metade do grupo, em meio aos ruídos da estática, a inconfundível melodia do mestre Lamartine Babo, para seus versos: "vamos todos cantar de coração, a Cruz de Malta .....". Só podia ser: VASCO, Campeão!!! 2003... Saíramos no início da noite do Porto do Cai n'Água, no "Cidade de Manicoré", para uma viagem de três dias, descendo o Madeirão até Manaus. Após o jantar, a temperatura era amena e o vento soprava sem muito rigor no convés. A cerveja gelada e os comentários sobre o noticiário do jornal noturno da televisão ajudavam no papo com os novos amigos. A partir de uma hora incerta, um grupo de cinco ou seis jovens bolivianos tornou-se o centro das atenções. Como que preparando-se para o carnaval próximo, ensaiavam passos de samba. Com alguma surpresa, percebíamos uma certa bossa e gingado em alguns deles. Um pouco mais tarde, passaram a gingar sem "fazer feio", num jogo de capoeira mais que honesto. Finalmente, cansado, me despedi. Foi um pouco difícil dormir com o barulho, pois o forró havia dominado o ambiente, e o volume do som fora ajustado algumas dezenas de decibéis acima do humanamente suportável. Teriam conseguido dormir os certamente mais de cem passageiros que viajavam em redes, no piso sob o tombadilho? Na manhã seguinte acordamos com ameaça de chuva. Navegávamos praticamente no meio do Rio, as margens a muitas centenas de metros, aparentemente sozinhos. Logo após o café da manhã, junto ao bar do convés havia um grande movimento. Cadeiras eram dispostas em frente ao aparelho de TV ligado, enquanto um dos marinheiros ajustava a antena parabólica. Quando a imagem se fez nítida, a tela foi dominada pelo amarelo da camisa da Seleção. Naquela manhã de doze de fevereiro, o Brasil disputava uma partida amistosa contra a China, em Guangzhou, do outro lado do Mundo. Nas próximas duas horas, sob uma chuvinha ininterrupta, acompanhamos ao vivo e em cores ao empate em zero a zero (não fora aquela seleção uma equipe dirigida pelo técnico Parreira) entre as duas equipes. No intervalo, aguardando o reinicio do jogo, lembrei-me daquela tarde de sábado em 1959. - Quanta mudança nesses 44 anos, até essa Amazônia globalizada. |