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Desde a véspera já me sentia feliz. Só em pensar, dava água na boca. Era criança, entre sete e dez anos de idade, quando cultivava o hábito de acompanhar meu avô ao mercado. Não ia para ajudá-lo a trazer as compras. Minha intenção era bem outra, egoísta como convém às crianças. Mesmo porque aquela saída, por volta das cinco da madrugada, exigia um despertar muito antes do horário habitual - levantar cedo, só contra a vontade para tomar remédio para vermes, que então exigiam jejum. Por isto, pedia ao vovô que me chamasse.
Ir ao mercado era um afazer do cotidiano da maioria dos pais de família que moravam em Porto Velho há algumas décadas, certamente como acontecia em outras cidades brasileiras antes do advento dos supermercados. Havia mulheres que iam, mas era tarefa tipicamente masculina. Geralmente as vísceras, eram compradas na véspera, por volta das cinco da tarde, quando uma fila se postava à porta do mercado, pelo lado da rua José da Alencar. Portando cestas de cipó titica ou ambé traçados, pessoas de todas as idades esperavam a vez para comprar fígado, miolo, bucho e outros miúdos. As carnes chegavam em caminhões abertos, sem proteção higiênica. Durante muitos anos, o produto vinha da Bolívia. Somente no dia seguinte, os diversos tipos de carne eram postos à venda. Em tempos de escassez, comprar esse produto de melhor qualidade exigia certo prestígio com os açougueiros. Pagar melhor era um bom aditivo para gozar do tal "prestígio".
A minha gula infantil, de olhos maiores que a barriga, era atraída apenas por um detalhe do velho mercado municipal de nosso passado. Carnes, verduras, farinha, especiarias e demais alimentos eram da conta de meu avô, que seguia a lista preparada na véspera por mamãe. Nem tanto a risca, já que cortava sempre alguma coisa - "por economia", dizia ele. Enquanto vovô ia comprando, preparava-me para o momento esperado: a parada na banca da d.Chiquinha, negra esbelta, com suas mãos de fada para preparar saborosos mingaus de milho, banana e tapioca. Eu preferia o de milho, o munguzá. Misturado com o de tapioca ou o de banana também ficava uma delícia. E as tapioquinhas, que podiam ser servidas úmidas, ao leite de coco, com cobertura da fruta ralada, ou quentinhas com manteiga. Tudo com sabor de hoje de manhã...
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