Pe. VITOR HUGO

© by Antonio Marrocos

Bip, bip, bip, biiiip, ....

Era o sinal enviado pelo Sputnik I, o primeiro satélite artificial da história, o primeiro objeto humano a superar a força de atração gravitacional da Terra, através do qual era monitorado. O pequeno satélite (do tamanho de uma bola de basquete) fora lançado em outubro de 1957 pela União Soviética dando início à corrida espacial URSS-EUA. O impacto político, cultural, militar, tecnológico e científico do feito foi imenso. Um mês depois, em novembro, o Sputnik II levou a cadela Laika ao espaço, o primeiro ser vivo a voar em órbita do Planeta. Após Yuri Gagarin nos ter ensinado em abril de 1961 que a "Terra é azul", a corrida, como tal, foi encerrada em julho de 1969 com a descida de Neil Armstrong e Edwin Aldrin na Lua. Então, ninguém ouviu o famoso bip, mesmo sendo o mais comentado ruído no Mundo. Hoje, às vésperas do meio centenário do lançamento do Sputnik I e , graças à Web, é possível comprovar isso ouvindo-se o sinal de telemetria do Sputnik - o camarada viajante do espaço - no sítio da NASA.

Aquela virada de década foi rica em grandes acontecimentos. A BR-29 (hoje, BR-364) fora aberta em apenas dez inimagináveis meses, Brasília inaugurada, Cuba tomara o caminho do socialismo soviético, num prenúncio do que viriam a ser os anos 1960 para a política, economia e cultura mundial e local. Essas recordações vêm a propósito da edição de meu primeiro livro "solo". Um estudo sobre sobre as perspectivas de disponibilidade e uso de gás natural em Rondônia, originalmente uma dissertação de mestrado, cuja editoração foi entregue a um dos filhos do ex-padre Vitor Hugo, como vim a saber.

Conheci Vitor Hugo ainda adolescente, como um amigo de meu pai. Os dois falavam muito sobre o futuro do Território e, principalmente, sobre radio-amadorismo, uma paixão comum. Os padres salesianos, congregação a que Vitor Hugo pertencia, eram muito rígidos. Os alunos do Dom Bosco, onde concluí meu ginásio, seguiam rígida disciplina escolar e religiosa. Missa todos os dias, antes das aulas. As sessões dominicais de cinema, onde Chaplin reinava com Carlitos, só podiam assistir aqueles que demonstravam haver assistido a missa matinal, na Catedral. Disso, padre Miguel não abria mão. Mantinham o hábito de usar quase sempre a batina preta, mesmo no calor equatorial de Porto Velho. No Ginásio via Vitor Hugo com freqüência, embora não tenha sido meu professor. Era diferente dos demais. Andava até sem batina, dirigia uma Lambreta e tinha atividades laicas, embora o sentido de sua fé sempre estivesse presente nelas. Contribuiu enormemente para a cultura local, tendo sido um dos fundadores da Rádio Caiarí. Mas, principalmente, é o autor de um dos livros mais importantes da historiografia da Amazônia: Os Desbravadores, em que narra a saga das missões salesianas, enquanto esclarece muito da formação regional.

Numa de suas viagens à Itália trouxe-me um presente. Daqueles inesquecíveis. Durante cerca de um mês foi o grande sucesso entre a garotada da "zona militar" onde morava. Era um pequeno foguete, como os que conduziram os Sputniks, disparado para o alto por meio de um estilingue. Ao ser vencido pela força da gravidade, girava, abria-se um compartimento de onde se soltava e abria um pára-quedas de plástico, cuidadosamente dobrado. O brinquedo descia então suavemente, ao sabor do vento, enquanto todos corriam e lutavam para ser o primeiro a alcançá-lo, adquirindo assim o direito de ser o próximo a lançá-lo.

Não resistiu muito tempo. A imprudência fez com que continuássemos a brincadeira num dia em que o tempo era chuvoso. O pára-quedas, umedecido, não se abriu e o pequeno foguete espatifou-se no chão.